FAQ

Reuni aqui os textos do blog que considero essenciais, especialmente para quem está começando na profissão. Espero que gostem.



Campanha “Nome do tradutor” da Abrates

Você sabia que a Lei de Direitos Autorais exige a menção do nome do tradutor em resenhas e sites de livrarias e editoras? A Abrates, Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes, iniciou hoje uma campanha pela divulgação dessa informação importante.

nomedotradutor

Chegou o mês de setembro, o Mês do Tradutor, mês do nosso V Congresso! E a ABRATES, com o apoio do SINTRA, lança hoje a campanha pela citação do nome do tradutor.

A ideia foi sugerida no Facebook pela tradutora Denise Bottmann, do blog “não gosto de plágio”, e a partir da iniciativa de nossa consultora jurídica pro bono, a tradutora Ernesta Ganzo, estamos, juntos, colocando essa ideia em prática.

Mas o que é a Campanha Nome do Tradutor? É simples: o tradutor, de acordo com a Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1998 – LDA), é AUTOR de obra derivada, o que lhe atribui direitos morais e patrimoniais, os mesmos direitos conferidos ao autor da obra original. O principal direito moral do autor, e também do tradutor, é ver seu nome ligado à obra criada. Esse direito persiste mesmo quando o contrato entre editora e tradutor inclui a cessão total e definitiva dos direitos patrimoniais, pois é inalienável e irrenunciável.

Fizemos uma pesquisa em algumas livrarias virtuais e, na maioria delas, encontramos obras que têm o nome do tradutor citado, mas isso não acontece com todos os títulos.

A Campanha terá como ação principal o envio de uma carta, elaborada por Ernesta Ganzo, a diversas editoras e livrarias virtuais, como a recém-chegada Amazon, ressaltando a obrigatoriedade da citação do nome do tradutor já na descrição da obra, de preferência junto ao nome do autor, o que permitirá a busca de títulos inclusive usando o nome do tradutor.

Além do envio de cartas, as ações incluirão postagens no Twitter e no Facebook usando a arte com o mote da campanha: “Todo livro tem um autor, todo livro traduzido tem um tradutor” com o lembrete: “Não se esqueça de mencionar o nome do tradutor.” e as hashtags #nomedotradutor, #cadeotradutor e #quemtraduziu, direcionadas não só às empresas, mas também ao público em geral, que nem sempre se dá conta de que há um tradutor por trás daquele livro que ele adora.

Garantir o direito do tradutor e dar maior visibilidade ao nosso trabalho junto ao público. Esses são os principais focos da Campanha Nome do Tradutor.

Participe! Divulgue!

Pelo fim do coitadismo e do mimimi

Não ao coitadismoVocê faz parte de um grupo qualquer de tradutores há algum tempo. Meses, anos. E semana sim, outra também, vê gente nova chegando e perguntando as mesmas coisas. Como fazer, onde ir, quanto cobrar, como funciona, etc. Uma, duas, dez, cem vezes. Considerando que 1) a maioria dos fóruns guarda todas as postagens e 2) saber e querer pesquisar deveria estar no DNA do tradutor, qual a atitude mais coerente? Acho eu, cá com os meus botões, que o mais correto é dizer “olha, ali tem uma ferramenta de busca, procure que isso já foi discutido 98596504286537856 vezes e já tem muita informação disponível”. Certo? Aparentemente, não.

Tenho visto, cada vez mais, recém-chegados ao mercado reclamando dessa atitude dos “veteranos”. Como assim, não vão me explicar tudo de novo? E veteranos passando a mão na cabeça dos recém-chegados (ou novatos, ou iniciantes, ou como quer que sejam chamados) porque pobrezinhos, não sabem nada, precisa ensinar. Concordo que ninguém nasce sabendo e nunca me recusei a ajudar (e este blog é uma prova disso), mas me recuso a colaborar com a cultura do coitadismo. Profissional tem que se portar como profissional. Ponto.

É comum os recém-ingressos no mercado não saberem quanto cobrar. Muitas vezes, mesmo os que frequentaram faculdade de tradução não têm um mínimo de noção dos preços praticados. E, nisso, a ajuda de quem tem mais tempo de estrada é fundamental. Nós temos a obrigação de dizer que um determinado valor é baixo, que é possível ganhar muito mais. Porque fazendo isso, indiretamente estamos educando os clientes também. Se menos tradutores aceitarem preços baixíssimos, pelo menos em teoria a tendência seria um aumento nos valores mínimos pagos pelos clientes. Isso é bom para o mercado e é bom para os tradutores como classe. E, principalmente, é bom para cada tradutor, que pode faturar a mesma coisa, ou mais, trabalhando menos. Os amigos, a saúde, a família, todos saem ganhando.

Na minha cabeça, isso é de uma lógica claríssima. Mas acho que muitos não compartilham da minha opinião, porque o que mais vejo são colegas dizendo “ah, mas não tem como um novato conseguir receber pela tabela do Sintra!”, “antes o pingado que o seco”, “quem está começando precisa aceitar o que aparecer”. Pior ainda, quando alguém mais experiente diz que determinados valores são ridículos, é chamado de prepotente, dizem que já esqueceu como era no início da carreira. Eu já contei que comecei ganhando pouco numa época difícil, vivi tudo isso na pele. Mas sei também que é perfeitamente possível sair desse ciclo negativo. Se especializar, batalhar, conquistar clientes melhores, participar de congressos, evoluir. Mas, para isso, é imprescindível deixar de lado o coitadismo. Levantar a cabeça, respirar fundo, aceitar críticas, não esperar nada de mão beijada, largar de mimimi, agir como um adulto profissional, não como adolescente birrento que dá piti quando não consegue o que quer. E a melhor ajuda que os mais experientes podem dar é mostrar, o quanto antes, como os iniciantes podem andar com as próprias pernas. O mercado de tradução e a sociedade como um todo agradecem.

Imagem: Geração de Valor

Ler, só, não basta

Tempos atrás meu cabeleireiro postou no Facebook:

Acho que quando você abre uma vaga de emprego e pede pra que as pessoas mandem currículo ou portfólio pra determinado e-mail, o mais óbvio é que se faça exatamente isso. Se o povo não consegue cumprir nem a primeira tarefa direito, imagina daqui a um tempo, se eu contrato esse povo.

Seguir instruções faz parte de qualquer trabalho, de qualquer área. Mas quem trabalha com textos precisa prestar atenção ainda maior a isso. Nosso trabalho pressupõe leitura e interpretação de texto o tempo todo. Quem não é capaz disso não tem condições de ser tradutor. Ponto. Ainda assim, é comum ver alguém postar uma oferta de trabalho num grupo ou lista pedindo para que os currículos sejam enviados para determinado e-mail, e o que acontece? Várias e várias respostas no próprio tópico. Isso já desqualifica o candidato, se o cliente for exigente.

Semana passada fiz um teste que pedia para renomear o arquivo do teste (que, por si, já tinha várias instruções a seguir com relação à terminologia) para código do idioma_nome do tradutor e enviar para email@dominiodaempresa.com com a linha de assunto “Translation test XXX project código do idioma”.

Depois de uma oferta no Proz.com, por exemplo, uma agência recebe no mínimo dezenas de contatos. Essa é uma forma simples de filtrar os candidatos que sabem seguir instruções. Primeiro, só são considerados os testes enviados para o endereço certo. Segundo, muito provavelmente o cliente definiu um filtro na caixa de entrada que manda os testes com assunto certo para determinada pasta. Eles vão abrir só essas mensagens, todas as outras que não seguirem os parâmeros muito provavelmente acabarão no lixo. Das que estiverem na pasta certa, vão pegar só os arquivos que estiverem corretamente renomeados. Não sei se existe uma estatística confiável com relação a isso, mas acredito que o percentual de candidatos “jogados no lixo” por não seguir as instruções iniciais não deve ser tão pequeno assim.

Então, deixo algumas dicas básicas para ganhar pontos adicionais com os clientes – ou, pelo menos, não perder pontos por falta de atenção:

  • Leia com cuidado e siga todas as instruções do cliente para testes e, claro, para todos os projetos.
  • Quando vir uma oferta em um grupo, comunidade, site ou lista, envie seu CV conforme indicado pelo solicitante: mensagem privada, no próprio tópico, um endereço específico, o que for.
  • Pense antes de indicar alguém. Se pediram um “revisor nativo de inglês”, por exemplo, não indique alguém que não cumpra essa exigência. Além de não ajudar o solicitante, mostra que você não leu, não entendeu ou simplesmente resolveu ignorar as instruções. De qualquer forma, depõe contra você.

Afinal de contas, se meu cabeleireiro ficou irritado porque os candidatos não seguiram as instruções que leram, o que vocês acham que nossos clientes pensam nessas situações? Que imagem eles fazem desses tradutores? Será que estão dispostos a pagar bem um profissional assim?

Como eu faço para…

“Oi, pessoal, alguém sabe como…”

– cobrar cliente com pagamento em atraso?

– converter pdf em doc?

– registrar empresa de tradução pelo Simples?

Estas e várias outras perguntas aparecem semana sim, outra também nos diversos fóruns de tradução. As respostas mudam pouco ao longo do tempo, o que quer dizer que são repetidas incontáveis vezes. Não acham isso uma perda de tempo? Eu acho. E o tempo de qualquer profissional, inclusive do tradutor, vale dinheiro.

Deixo, então, uma dica aos iniciantes – e aos nem tão iniciantes assim: mostre que tem uma qualidade importantíssima a qualquer tradutor, a de saber pesquisar, e PESQUISE antes de chegar perguntando a mesma coisa pela enésima vez. Pesquise no Google, o oráculo moderno. Pesquise na lupinha do canto superior direito dos grupos do Facebook (a busca do Facebook nem sempre funciona, mas costuma ajudar bastante). Pesquise nas listas do Yahoo. Mas pesquise. Faça sua parte.

Todos agradecem.

Tradução e o governo

Não, eu não vou falar sobre leis nem sobre política. Outras pessoas podem falar sobre isso com muito mais propriedade. Vou falar sobre o governo como cliente.

Há muito tempo, bem antes de me tornar tradutora, eu aprendi que fornecer para o governo nem sempre é uma boa ideia. Aprendi por experiência própria, direta e indireta, e observando a experiência alheia.

Veja só: como existe uma licitação, ganha quem der o menor preço. E os prazos de pagamento, bem, não costumam ser exatamente curtos. Na minha vida passada como comerciante, vi clientes passando por grandes apuros financeiros depois de vender para o governo (principalmente o estadual e o federal) e demorar vários meses para receber. Valores altos, muitos milhares de reais. Um rombo desses no caixa atrapalha qualquer um, e eu acabei não recebendo de vários desses clientes também. Ou seja, o prejuízo nunca é só do fornecedor. Isso vale para fornecimento de mercadorias e, pasmem, também de serviços como tradução.

Hoje, o querido amigo Ricardo Souza postou no Facebook:

Esta postagem tem um quê de desabafo e destino certo, os colegas tradutores que também são empresários de tradução.

No dia 24 de novembro de 2012, postei aqui sobre um cliente com quem tinha boa relação e que fechou um contrato de tradução de longuíssimo prazo por preço vil. Na época, comentei que, ao saber da notícia, fiquei surpreso e triste de ver um bom cliente com experiência de mercado cair na armadilha do desconto por volume e que isso não daria em boa coisa. Uma ressalva, quando fiz a postagem, não sabia que, na verdade, o contrato fora assinado de fato em janeiro daquele ano e não em novembro.

Pois bem. Hoje, passado um ano do início do tal contrato e com outros anos ainda pela frente, aquele cliente antes bom cumpridor de suas obrigações de pagamento está com problemas evidentes de caixa e deixando de pagar seus fornecedores em dia, inclusive a mim. Não posso afirmar, é óbvio, que sua insolvência tenha a ver com o tal contrato. Minha experiência, todavia, inclusive como gestor de contratos muito parecidos, diz que tem e que a coisa só vai piorar. Só existe uma, apenas uma hipótese para algum resultado positivo advir de uma coisa assim, é quando o fornecedor contratado tem caixa suficiente para bancar o contrato de valor desfavorável e usá-lo para alavancar outros negócios no mercado.

Vejam bem, falei em resultado positivo, não em ganhar dinheiro com o contrato. Por resultado positivo, entenda-se não ficar no vermelho na rescisão e usar o contrato para gerar, em sua vigência, negócios similares que, estes sim, gerarão lucro. Se o objetivo for ganhar dinheiro num contrato de longo prazo a preço vil, a saída será prestar um serviço com qualidade reles (o que pode ser um tiro no pé) e burlar o Fisco (o uso de “e”, não “ou”, não é liberalidade de estilo). Não há outra opção.

É por isso que peço a vocês, empresários de tradução, de quem só quero a prosperidade até mesmo por uma questão de sobrevivência própria, não se deixem levar pela tentação dos números e pelo pernicioso pensamento de “vamos ganhar isso agora e depois a gente dá um jeito”, principalmente quando o negócio envolver empresas estatais. Não há jeito nenhum, a não ser jogar a própria reputação no lixo e violar a lei, além de detonar a relação com quem, com denodo e profissionalismo, presta serviços a vocês.

Porém, se esse embrulho todo não incomodar nem um pouco, vão fundo. Mas estejam preparados para ir ao fundo mesmo e se sujarem na lama que está lá.

Essa história corrobora o que eu aprendi a custo de observação e um tanto de prejuízo: antes de se animar com os valores brutos (“caramba, vai dar para faturar X mil reais em Y meses!!”) é preciso sentar e fazer as contas. Com muita calma e realismo. Sabe aquele papo de que mais vale um pássaro na mão do que dois voando? Pois é, também encaixa direitinho aqui. Você precisa se perguntar – e se responder com toda a sinceridade que puder:

– Tenho condição de trabalhar esse tempo todo para este cliente sem prejudicar meu relacionamento com os outros?

– Tenho caixa para pagar todas as contas e impostos do período – incluindo os tradutores que trabalharem no projeto! – caso o cliente governo atrase o pagamento (e acredite, esta possibilidade não é tão remota quando gostaríamos que fosse)?

Certamente existem outras perguntas nesta lista, mas essas duas aí são as mais importantes para este singelo pitaco. Porque se a resposta a uma delas for não, meu amigo, você vai acabar enrolado.