Pavlov e a concentração

Já ouviu falar de Pavlov? Costumo dizer que a minha concentração é pavloviana. Muitas vezes, ela só dá as caras com um determinado conjunto de estímulos.

Ao longo do tempo, descobri que o ambiente ideal pra concentração se “manifestar”, quando anda meio ausente, é música new age nos fones de ouvido mais pomodoro (ou, como é carinhosamente chamado, “tomatada”). Talvez por ter usado essa dupla por muito tempo para trabalhar em dias de boa concentração, hoje ela “chama” a concentração passeadeira.

Então, fica a dica: se uma técnica ou um determinado ambiente funciona bem para você trabalhar, use-o sempre e condicione seu cérebro. Assim, quando precisar… Pavlov nele!

 

PS: Se precisar de uma trilha sonora para trabalhar, tenho algumas playlists no Grooveshark (new age, Yes, Jean Michel Jarre) (para mim, ajuda se a música for só instrumental). O Spotify também tem playlists para todos os gostos.

Léxicos bilíngues para download

Sempre comento nas minhas palestras que tenho um glossário no memoQ com um léxico geral, genérico, que uso para acelerar a digitação (com o predictive typing ativado) e poupar os dedos. Várias pessoas já me perguntaram a base desse léxico, se fui montando com o tempo ou se baixei alguma coisa pronta. Tenho os dois. Um que eu fui montando ao longo dos anos, que tem “a minha cara”, e outro que baixei. São dois arquivos diferentes, mas como o memoQ permite usar quantos glossários quisermos em um projeto, isso não faz diferença no dia a dia. Eu jurava que já tinha postado aqui, mas só agora percebo que estava enganada. Vamos resolver isso já! :-)

O site Dict.cc disponibiliza léxicos em inúmeros pares de idiomas, no formato UTF-8 separado por tabulação. É só baixar o arquivo e importar no memoQ. Nem todos os termos estão traduzidos, mas isso a gente completa aos poucos.

Quem tem medo do Google Translate?

Não é de hoje que vejo colegas esbravejando contra a tradução automática, principalmente contra o tradutor do Google, hoje em dia a mais famosa dessas ferramentas. Pessoalmente não uso o GT porque o tipo de material que traduzo requer sigilo e meu clientes exigem isso em contrato, mas tenho experiências cada vez melhores com o ProMT (que é offline, só na minha máquina, com minhas TMs, meus glossários e as regras que eu especifico para cada caso).

Acabei de ler um artigo que fala do uso do GT na comunicação entre médicos e pacientes, e as conclusões corroboram a minha experiência:

“Google Translate has only 57.7% accuracy when used for medical phrase translations and should not be trusted for important medical communications. However, it still remains the most easily available and free initial mode of communication between a doctor and patient when language is a barrier. Although caution is needed when life saving or legal communications are necessary, it can be a useful adjunct to human translation services when these are not available.”

“Swahili scored lowest with only 10% correct, while Portuguese scored highest at 90%.”

Estão falando de tradução com GT, ferramenta grátis e sem pós-edição.O artigo completo está aqui: http://www.bmj.com/content/349/bmj.g7392

E como isso pode ajudar a nós, tradutores? Querem um exemplo prático? Traduzi recentemente o manual de operação de um equipamento para laboratório de análises clínicas usando o ProMT. Segundo o memoQ, mexi só em 20% do texto para mandar pro cliente com a terminologia e o estilo que ele queria. Ênfase no “mexi no texto“. MT tem que ser pós-editada, obviamente, para não ser um tiro no pé do tradutor. O texto que vai pro cliente tem que ser tão bom quanto o que você traduziu “sozinho”.

MT não serve pra todos os tipos de texto nem pra todas as ocasiões nem pra todos os pares de idiomas, mas pode ser um grande aliado dos tradutores que não tiverem medo de aprender uma tecnologia nova. Pode nos poupar digitação e muito tempo – ou seja, mais saúde, mais produtividade e mais tempo livre, sem necessariamente perder qualidade. Tudo depende de quem (e como) usa a ferramenta.

Campanha “Nome do tradutor” da Abrates

Você sabia que a Lei de Direitos Autorais exige a menção do nome do tradutor em resenhas e sites de livrarias e editoras? A Abrates, Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes, iniciou hoje uma campanha pela divulgação dessa informação importante.

nomedotradutor

Chegou o mês de setembro, o Mês do Tradutor, mês do nosso V Congresso! E a ABRATES, com o apoio do SINTRA, lança hoje a campanha pela citação do nome do tradutor.

A ideia foi sugerida no Facebook pela tradutora Denise Bottmann, do blog “não gosto de plágio”, e a partir da iniciativa de nossa consultora jurídica pro bono, a tradutora Ernesta Ganzo, estamos, juntos, colocando essa ideia em prática.

Mas o que é a Campanha Nome do Tradutor? É simples: o tradutor, de acordo com a Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1998 – LDA), é AUTOR de obra derivada, o que lhe atribui direitos morais e patrimoniais, os mesmos direitos conferidos ao autor da obra original. O principal direito moral do autor, e também do tradutor, é ver seu nome ligado à obra criada. Esse direito persiste mesmo quando o contrato entre editora e tradutor inclui a cessão total e definitiva dos direitos patrimoniais, pois é inalienável e irrenunciável.

Fizemos uma pesquisa em algumas livrarias virtuais e, na maioria delas, encontramos obras que têm o nome do tradutor citado, mas isso não acontece com todos os títulos.

A Campanha terá como ação principal o envio de uma carta, elaborada por Ernesta Ganzo, a diversas editoras e livrarias virtuais, como a recém-chegada Amazon, ressaltando a obrigatoriedade da citação do nome do tradutor já na descrição da obra, de preferência junto ao nome do autor, o que permitirá a busca de títulos inclusive usando o nome do tradutor.

Além do envio de cartas, as ações incluirão postagens no Twitter e no Facebook usando a arte com o mote da campanha: “Todo livro tem um autor, todo livro traduzido tem um tradutor” com o lembrete: “Não se esqueça de mencionar o nome do tradutor.” e as hashtags #nomedotradutor, #cadeotradutor e #quemtraduziu, direcionadas não só às empresas, mas também ao público em geral, que nem sempre se dá conta de que há um tradutor por trás daquele livro que ele adora.

Garantir o direito do tradutor e dar maior visibilidade ao nosso trabalho junto ao público. Esses são os principais focos da Campanha Nome do Tradutor.

Participe! Divulgue!

Pelo fim do coitadismo e do mimimi

Não ao coitadismoVocê faz parte de um grupo qualquer de tradutores há algum tempo. Meses, anos. E semana sim, outra também, vê gente nova chegando e perguntando as mesmas coisas. Como fazer, onde ir, quanto cobrar, como funciona, etc. Uma, duas, dez, cem vezes. Considerando que 1) a maioria dos fóruns guarda todas as postagens e 2) saber e querer pesquisar deveria estar no DNA do tradutor, qual a atitude mais coerente? Acho eu, cá com os meus botões, que o mais correto é dizer “olha, ali tem uma ferramenta de busca, procure que isso já foi discutido 98596504286537856 vezes e já tem muita informação disponível”. Certo? Aparentemente, não.

Tenho visto, cada vez mais, recém-chegados ao mercado reclamando dessa atitude dos “veteranos”. Como assim, não vão me explicar tudo de novo? E veteranos passando a mão na cabeça dos recém-chegados (ou novatos, ou iniciantes, ou como quer que sejam chamados) porque pobrezinhos, não sabem nada, precisa ensinar. Concordo que ninguém nasce sabendo e nunca me recusei a ajudar (e este blog é uma prova disso), mas me recuso a colaborar com a cultura do coitadismo. Profissional tem que se portar como profissional. Ponto.

É comum os recém-ingressos no mercado não saberem quanto cobrar. Muitas vezes, mesmo os que frequentaram faculdade de tradução não têm um mínimo de noção dos preços praticados. E, nisso, a ajuda de quem tem mais tempo de estrada é fundamental. Nós temos a obrigação de dizer que um determinado valor é baixo, que é possível ganhar muito mais. Porque fazendo isso, indiretamente estamos educando os clientes também. Se menos tradutores aceitarem preços baixíssimos, pelo menos em teoria a tendência seria um aumento nos valores mínimos pagos pelos clientes. Isso é bom para o mercado e é bom para os tradutores como classe. E, principalmente, é bom para cada tradutor, que pode faturar a mesma coisa, ou mais, trabalhando menos. Os amigos, a saúde, a família, todos saem ganhando.

Na minha cabeça, isso é de uma lógica claríssima. Mas acho que muitos não compartilham da minha opinião, porque o que mais vejo são colegas dizendo “ah, mas não tem como um novato conseguir receber pela tabela do Sintra!”, “antes o pingado que o seco”, “quem está começando precisa aceitar o que aparecer”. Pior ainda, quando alguém mais experiente diz que determinados valores são ridículos, é chamado de prepotente, dizem que já esqueceu como era no início da carreira. Eu já contei que comecei ganhando pouco numa época difícil, vivi tudo isso na pele. Mas sei também que é perfeitamente possível sair desse ciclo negativo. Se especializar, batalhar, conquistar clientes melhores, participar de congressos, evoluir. Mas, para isso, é imprescindível deixar de lado o coitadismo. Levantar a cabeça, respirar fundo, aceitar críticas, não esperar nada de mão beijada, largar de mimimi, agir como um adulto profissional, não como adolescente birrento que dá piti quando não consegue o que quer. E a melhor ajuda que os mais experientes podem dar é mostrar, o quanto antes, como os iniciantes podem andar com as próprias pernas. O mercado de tradução e a sociedade como um todo agradecem.

Imagem: Geração de Valor